Vivia como que envolta num lúgubre pesadelo. Vez por outra acordava, inundada de suor, para vivificar aquilo que lhe parecia o real. Era quando mergulhava nos livros ou filmes remotos. Vivia ou revivia aquilo que sentia seu.
Mirava-se no espelho e estranhava o penteado, as roupas que usava, os brincos e acessórios; desconhecia-se. Da janela do apartamento observava minuciosamente o novo arranha-céu sendo construído. Achava-o inusitado. Como se ele não devesse estar ali... Distante e nada familiar era a paisagem vista de sua sacada. Desprovida de brilhantismo e esplendor.
Desta forma, também, conceituava os carros, aviões, foguetes, computadores, televisão... Tudo tão insólito, desconexo e ilógico. Não conseguia estar em harmonia com aquilo que chamamos de rotineiro e habitual neste nosso mundo moderno. Sentia-se irremediável, profunda e inexoravelmente um peixe fora d’água.
A sujeira das grandes cidades; o barulho ensurdecedor dos veículos, das fábricas e das próprias pessoas; o cinza mórbido e comum dos edifícios; a violência desmedida e sem sentido; o corre-corre neurótico do dia-a-dia; a escravidão do Homem pelo relógio; as máquinas desempregando os operários; a falta de cortesia e retidão de caráter... As existências sem lirismo e ocas de sonhos... Definitivamente ela não cabia nesta época. O destino enganara-se e ela viera despencar aqui. Inefável a sensação de impertinência. Indescritível a sua dor.
Concreta era a certeza de fazer parte de um tempo longínquo, de um estilo de vida destoante. Era sua a época de pequenos lugarejos e grandes reinados; de cavaleiros e carruagens; longas vestimentas e fitas de seda nos cabelos; da linguagem arcaica; de castelos e bebidas fermentadas; de camponeses, nobres e plebeus. Época dos amores eternos, de menestréis e danças suaves embaladas por flautas e alaúdes.
Era seu o tempo de se ter tempo para caminhar, ao entardecer, por trilhas de terra com sombrinhas de babados...
Assim era que, estranhando os fatos mais corriqueiros da vida, absorvia-se em leituras por horas a fio... Falava sobre o passado com a primazia de quem o conhece bem. Assistia aos filmes antigos e facilmente adivinhava lugares, figurinos e roteiros.
Fazia de seu mundo um resquício do acontecido, um caquinho de sua vida de outrora.
Até que um dia não a encontraram mais. Dizem, alguns, que ela teria se mudado para bem longe.
Fato é que, certa madrugada, flagraram a lâmpada do abajur acesa, os óculos abandonados sobre a fronha de seda e o formato do corpo ainda sobre os lençóis... Mas tudo o que tinha de seu ainda estava ali. O livro que lia, entreaberto, marcando a última página. As folhas úmidas espalhavam um aroma de alecrim. No ar pairava uma atmosfera antiga, saudosista...
Contam que foi assim que ela voltou para o seu tempo, perpassando as páginas daquele livro mofado da Biblioteca Nacional.